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terça-feira, 7 de junho de 2011



Andou desamparado sobre a calçada irregular. A mão abraçava um ramo de flores do campo frescas e coloridas. Desejava entregar-lhe uma prova sincera e inequívoca do amor que sempre lhe dedicara. Sabia da importância deste gesto para o seu próprio destino. Atravessou a rua com um suspiro impaciente. Pretendeu cruzar o portão quando foi interpelado: – Senhor hoje o cemitério está encerrado.

Perscruto os teus olhos e só consigo ver o reflexo da minha alma. Inquietas-me. Se não vejo a tua, só reflexos de mim, duvido. Duvido que existes. E se não existes apesar de te olhar para ti, existo eu? Ou sou apenas a minha ilusão. Subitamente apagou-se a lareira e o frio persistente regelou todos os cantos do quarto.
O espelho partiu-se deserto.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Vergonha



Pelos caminhos que esboças no meu corpo sei que ainda não conheces os meus desertos.

Eles são longos...de noites tormentosas e dias frios.

As noites são escaldantes!... onde as luas escondidas ardem de deleites inconscientes em sonhos de realidade.

Os dias, ah os dias! Esses são gélidos... onde eu desabrigada avanço nua de mim... e em imensa vergonha tapo o que ninguém vê.

E é sempre no pôr do sol que rolam silenciosas as águas salgadas contemplativas do que não sou. Escorrem corpo adentro. Criam lagos sublimes em paisagens diáfanas transpiradas pelos interstícios deste corpo que imagina ser meu.

E é sempre no despontar do dia que não acordo. Adormeço enfim para que já não padeça a o entorpecimento último da morte lenta...muito lenta...

E tu desenhas-me o corpo sem saberes que já não existo.