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domingo, 20 de setembro de 2009

A Travessia

Sufoco. O calor do sol escaldante apaga qualquer memória das alegrias vividas.
Somos tantos nesta procissão lúgubre para a inevitável morte.
Eu sou mais um.
Mais um que sente sede, mais um mendigo amargo e resignado que estende a mão à benevolência celeste.
Mais um no deserto, sempre angustiado e só, sempre perdido e acompanhado.
Marchamos de forma lenta e pausada, exército da fome, exercício do mal.
O nosso ritmo fúnebre, agoira novas vidas, germes da existência, alimento de abutres. Não se desenha qualquer esperança.
Somos assim, grupo taciturno, mudo, moribundo.
As crianças e os jovens já há muito pereceram de desespero e infelicidade.
Estamos cegos e surdos.
Tão cegos que pisamos na esperança sem compreender, sem reconhecer, sem identificar aquele líquido sem fim, caixão asfixiante da procissão.
E eu que nunca vira tal coisa, tanta imensidão esvoaçante, entrego-me ao infinito… e levanto voo.

Anamar
Abril 2009

Entres...

Os cabelos vermelhos esvoaçavam infinitos como labaredas de fogo a jorrarem sobre o horizonte.
Contemplava as fronteiras entre terra e mar, mar e mundo, espaço alvos e suaves cheios de mudez.
Adorava os entres. Entrelinhas, entretanto, entrementes, entrelaçados, entregues, entre a vida e a morte, entre o tudo e o nada.
Todos os entres nada mais eram do que a definição tardia, mas fiel, de si própria, existência efémera, sem raízes, filha do mar.
Sentia barbatanas nos pés e cambaleava pela vida, em dúvida, em interrogação.

Anamar
Abril 2009