Taciturno e
doente, arrastava os sapatos pelo o chão de madeira corrida. Parecia praguejar
baixinho, constante na queixa. No cinto pendurava-se um molho de chaves que
abriam as numerosas salas, submergidas em conhecimento. Vigiava a entrada com
ressentimento. Poucos entravam naquela biblioteca cheia de pó, ácaros e
aranhas. Ninguém percebia o tesouro que escondia. O bibliotecário zelava com cuidado o segredo da sua
antiguidade. Os poucos que da biblioteca se acercavam eram judiciosamente
ignorados, e perdiam-se no labirinto. Agastados desistiam e procuravam saber em outras bandas,
agora mais simpáticas e nas pontas dos dedos. São tão estúpidos esses estudantes.
Ignorantes e preguiçosos, pensou.
Um grupo de rapazes invadiu o átrio. Procuravam um livro obsoleto. Pode
indicar-nos onde podemos encontrar livros dos anos sessenta? Olhou com
desprezo. Ah, isso é muito difícil de pesquisar, murmurou. E especificamente
qual é o interesse de vossas mercê? Magia, explicou o mais astuto. Isso não
existe. Muito menos no século XX. Empurrou-os sem cuidado e voltou ao seu
inferno. O molho de chaves caíra no chão. Ninguém repara. O estudante engenhoso
enfiou-as na mala sorrateiramente, novo dono da eternidade.

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