Muito bem. Estou mais uma vez aqui. Espelho, espelho meu quem é mais bela do que eu? E isso interessa agora? Oitenta anos Marta Faria. Oitenta, nada menos, quantos mais…Humm…Surpresa das surpresas, não esperavas chegar até aqui. Insistias em sessentas e picos. Afinal muitos picos. Muitos mais anos, enormidades de segundos, mais obstáculos, mais trabalho, mais pessoas e kilometros de pensamentos! E se os pensamentos pudessem ser arquivados, terias criado a biblioteca perdida da Alexandria! Mas não. Agora correm soltos por aí, energia por condensar, tal qual ondas de rádio sem receptor, trespassando corpos. Quem sabe para a próxima vida?
Juízo mulher! Atenção estás aqui para reflectir sobre o que fizeste da tua vida! Da, percebes? Não, na. Rio-me de mim mesma. Faço uma cómica parceria com o reflexo do espelho. Careta, lado e outro lado. Ajeito o cabelo. Observo-me. Dou um íntimo obrigado aos inventores do Botox e das mais variadas técnicas de aperfeiçoamento físico. Gosto da face que vejo, velha. Gosto do corpo que toco, boas pernas firmes e fortes, assentes na terra. E muito uso fiz da minhas qualidades de assentamento. Sem estas pernas podia ter voado passarinhadamente, coisa que por ventura atirar-me-ia para vazios perigosos. Assim na vida fiz as coisas normais, banais até, como casar e criar duas filhas, a trabalheira que dá, suar para comprar casa, organizá-la, garantir engrenagens oleadas para que a minha vida e dos meus fosse menos irritadiça. Passar, lavar, cozinhar, merendinhas pra´s meninas, leva-e-tráz escolares e coisas desse género é que, confesso, fiz o mínimo possível. Sempre detestei visceralmente esse tipo de coutidiano pequenino, feito de gestos femininos, supostamente. Ritmos hipnóticos e autistas. Porque ocupar a vida com movimentos sem conteúdo não foi desporto que tenha praticado com gusto. Na vida há que escolher os vazios. Prefiro vazios desocupados e preguiçosos. Regados por um bom tinto do Douro, vinhos encorpados mas suaves no tracto digestivo, acompanhados do pecado sublime de um tablete de chocolate de leite, a derreter na boca e nas mãos, obrigando aquele gesto, sensual de lamber as pontinhas dos dedos, um a um. Que combinação de sentidos esplêndida! Permaneço nos meus oitenta anos totalmente fiel aos meus lânguidos vazios de chocolate e vinho. Afinal há que cuidar do corpo! São as fidelidades possíveis.
As minhas opções “normais” , e nem adianta questionar a nulidade do conceito do normal, inexistências afinal, revelaram-se surpreendentemente recompensadoras apesar da minha constante hesitação e grande desconfiança da normalidade. Um marido, duas filhas e três netos parecem-me uma pauta de música bem desenhada, principalmente considerando que, excluindo alguns desaires e tropeços insignificantes, a saúde escolheu moradia na minha família. E saúde na minha idade já cá conta! Com excepção dos milhentos pensamentos por segundo, tormento que vou dominando na escolha da sanidade. Lanço um xôxô estaladiço ao meu reflexo. You are OK kid.
E continuas aqui para baralhar a importantíssima reflexão sobre a tal questão do da e não do na. Segue-se então pensamentos filosoficamente densos sobre o da. Na da. A vida é assim. Não se faz dela nada que não se faça nela. Tal como os amores, a virtualidade mata-a. Não importa se se ama. Importa sim como. E de comos tenho a vida cheia. Como acalentei as minhas meninas nos momentos de dor, como apoiei e fiquei presente e inteira em momentos de percalço financeiro do meu marido, como lutei para que tivéssemos uma relação mais verdadeira, menos rotulada e mais justa para minha parte da parceria, como soube escolher os presentinhos carinhosos para os amigos, como telefonei nas horas certas e erradas para os que precisavam de ouvido e sentei com eles horas a fio, como lembrei-me de dizer aquelas palavras sábias para muitas pessoas desesperadas ou confusas. Como prestei atenção aos meus. Meus parceiros, meus amigos, meus empregados, meus mundos. E tantos outros como que só eu mesma podia saber fazer, por mim e pelos outros. Como emprestei motor e direcção às nossas empresas, como venci barreiras nos estudos e em particular no trabalho, sem nunca abdicar da minha feminilidade e condição de mulher, como conquistei o espaço de artista por conta própria e de mais ninguém, como visitei todos os meus pensamentos e encarei todas as emoções desproporcionadas e vadias, como vacilei pouco de mim mesma mesmo perdida e assustada, olhei no espelho cega, mas com coragem, como optei por outros quando imprescindível e apesar da raiva e mágoa de mim sobre a ausência mim. Como, enfim, pausei em toda a rotulagem cómoda e irresponsável e cuidadosamente guardei etiquetas numa cofre interior e usei de toda a paciência para redimensionar, alargar, lateralizar, multifacetar o reflexo humano. E se é de reflexo que tratamos, ondas nada mais.
Anamar
13 de Setembro de 2006
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