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quinta-feira, 30 de abril de 2009

Filomena

Tinha-se isolado no atelier. Mergulhava absorvida no tríptico fotográfico que ocupava sua atenção criativa já há uma semana. Fechara todas as portas de comunicação com o exterior e descansava no sossego da ausência de ruídos. O mundo lhe parecia um enigma labiríntico de excessivos estímulos. Preferia, se tal lhe tivesse sido concedido, perceber menos, sentir menos, viver mais indiferente às emoções, preocupações e desesperos interiores que adivinhava nas pessoas. Não lhe tinha sido poupado nada. Captava contrariada todas as vivencias, escolhas, decisões, rejeições e hesitações humanas. Era um verdadeiro inferno interior, o seu, o dos outros.
Flor, a sua gata malhada dançou languidamente entre suas pernas, acariciando-a com calidez, limpando-a de toda a complexidade da afectividade humana. -Olá bichaninha, que bom estares comigo! Filomena tinha salvo a bebé abandonada na rua, certa de que seu destino era morrer de fome. (história da flor). Agora era recompensada com um afecto incomum e sólido, nada típico de gatos. Filomena chorou. Lágrimas gordas mas calmas que enfeitaram o piso da sua existência, lavando-se, lavando Flôr, brindando o chão com pérolas líquidas. Filomena simplesmente não era comum. Os Deuses tinham-lhe agraciado demasiados atributos físicos e espirituais. Criaram, na sua inconsequênte diversão, uma parodoxa boneca inteligente. Sob os seus olhos de gata, nem esmeralda, nem azuis, sob cabelos fartamente dourados e sublinhados por um sorriso largo e sincero, existia uma mente densamente lúcida, povoada por uma imaginação febril e fertil. Era um enigma, pessoal e intransmisível.
Enquanto criança tinha esboçado inúmeras preçes inúteis. Pedia, inconsolável, por menos. E cada vez que resava, os Deuses, esses malditos, riam-se jocosamente e atribuiam-lhe mais de si mesma. Mais sensibilidade e mais consciência, roubando-lhe a paz da ignorância. Tinha por dessa forma inusitada envelhecido precocemente. Uma das certezas do progresso da vida (ou da morte conforme o gosto mais ou menos mórbido de cada um) reside na agraciação de auto conhecimento, formula gradual e simples adjudicada democraticamente a todos os humanos, que tende a culminar em uma acentuação de traços de personalidade, muitas vezes caricatos e maníacos. É assim que se produzem aqueles velhotes amansados, que falam com os pombos da praça. Falansse-se. Filomena era assim, jovem por fora e velha por dentro, fruto de todas da orquestra de vozes do mundo que a rodeava.

A família receava as particularidades algo excêntricas, de Filomena. Porque chorava aquela criança? Afinal tinha tudo o que realmente importava para viver bem no nosso mundo. Era bonita. E que mais importava numa mulher? Não era a beleza o melhor dos bens? Ou a pior das maldições, chorava Filomena sobre os seus quadros. Este recente trabalho explanado na sua plataforma de pintura abordava o tema de metamorfoses, entre ela e a Flor. Tinha ensaiado cuidadosamente uma série de fotografias compostas de traços comuns, trocado orelhas, olhos e narizes de tal forma a criar duas criaturas Osíricas. Faltava-lhe o código. Qualquer elemento que para si mesma iria se constituir na peça fundamental deste puzzle. A sua atenção foi resgatada. Interrogativa observava agora o tríptico. Mecanicamente escolheu um CD da sua colecção de preferências. Os Linking Park passaram a povoar o espaço sonoro de seu atelier. Era uma música feroz com uma lírica inquieta. Iniciou o ritual da criação. Com uma espátula larga espalhou uma fina e irregular camada de massa. Transformou a massa com gestos rápidos. O ritmo de suas mãos era metodicamente incontrolável. Faziam uma triangulação com os olhos e adquiriam o ritmo da alma. Progressivamente entrou num estado hipnótico. Já nada importava que não fosse aquele compasso lírico. –Filomena, o jantar está na mesa - chamou a Dona Maria do Céu, sua mãe. Tinham-se passado três horas. Filomena acordou do transe que por ter sido interrompido antes do seu tempo deixou uma espécie de alienada presença na resposta. –Já vou, Mãe. Lavou cuidadosamente vários pincéis, despejou a água turva das canecas e fechou os potes de tinta acrílica. Organizou o material de seu trabalho e desceu as escadas. Entrou na sala de jantar, pediu desculpas pelo atraso e sentou-se à mesa. A D. Maria do Céu esboçou aquele gesto de ombros entre o desagradado e o desdém.
Na mesa estavam sentados na cabeceira o Pai, Engenheiro Augusto de Albuquerque Neves, como qualquer Pai que se preze, dono e senhor das suas propriedades, comandante máximo das tropas do cotidiano, à sua direita D. Maria do Céu, anteriormente Teixeira e Santos e já há um quarto de século Santos de Albuquerque e Neves, pela graça de Deus e a santa tolerância de D. Maria do Céu para com os resistentes/persistentes/incorrigíveis defeitos de comportamento do Engenheiro seu digníssimo marido. Miguel Augusto, o filho varão estava sentado em frente à Mãe, seguido e de forma alternada encontravam-se José Maria, Maria das Dores, Maria do Carmo, Filomena (sem Maria pelo cansaço de tantas mariisse....) e Duarte, o novíssimo. Entre Miguel e Filomena, 24 e 15 anos respectivamente distribuíam-se os outros 4 filhos em intervalos de ano, ano e meio, dando conta da fogosidade e empenho com que o Sr. Engenheiro preenchia suas obrigações matrimoniais. Nada de estranhar pois na realidade D. Maria do Céu tinha sido considerada uma das raparigas mais bonitas de sua cidade, uma morena de pele alvíssima, olhos amendoados e boca pequena e vermelha.

Num voo de pombas brancas, um corvo negro junta-lhe um acréscimo de beleza que a candura de um cisne não traria. "Decameron" - Giovanni Boccaccio

Anamar
13 de Julho de 2006

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