Detesto aquela mulher. A Amélia é um género de mulher que mexe com as minhas entranhas, que me irrita e entedia num compasso persistente, que nem sua elegante simpatia, distribuída de forma casual e democrática, nem a sua correcta aparência de senhora da casa e dos seus, mitiga. Pelo contrário. É exactamente toda essa correcção que acho insidiosa. O objecto de generalizada aprovação social, despoleta em mim a desconfiança profunda da perfeição. Afinal de contas, para meu descanso mental, perfeição humana não existe. Talvez não exista sequer perfeição divina, quanto mais aqui neste chão, junto a meros terráqueos, plateia de segunda no teatro da existência. A minha atitude perante a perfeição é dogmática, é certo, mas, reconheçamos, gentil para com a humanidade em geral, onde, obviamente, não tenho outra alternativa senão me inserir. Estou viva, e a perfeição, essa, nem morta está. E é neste lusco-fusco que se situam mulheres como a Amélia. Mulher-raiz, importantíssima para a sobrevivência de valores básicos da sociedade ocidental como a família, a sobriedade e moderação, enfim, a Pátria, e tudo... Assim é a maçadora da Amélia. Do cimo dos seus 60 anos, governa com mão forte e cuidada uma família composta por marido e três filhos, todos formados e casados, já com netinhos a assegurar a sucessão, a qualidade da transmissão genética.
A insensível da Amélia foi uma bela mulher e vê-se. Continua a manter um bonito ar sereno, próprio da maturidade, com um quê de distanciamento, costumeiro nas mulheres de beleza excepcional, truque desenvolvido com a finalidade de afastar assédios impróprios. Alta e altiva, corpo modelado e firme, cabeleira farta e reluzente, trazida curta e sempre cuidada, criteriosamente penteada, Amélia veste-se com cuidados de malvadez, tudo certo, tudo próprio a uma senhora digna e elegante da melhor sociedade portuguesa. Aliás parece-me que as Amélias duplicam-se, esparsa e preferencialmente, num extracto social alto de qualquer país ocidental, inclusive do outro lado no Oceano Atlântico.
Esta minha exasperante Amélia é um ícone de boa execução feminina. A mulher ideal, aquela que todas as mulheres almejam ser um dia, Amélia é sumamente competente naquilo que está convencionado se o papel da mulher: a sua casa é impecavelmente mantida, as criadas organizadas e treinadas na realização primorosa das tarefas caseiras, o motorista também sabe servir à mesa, tudo orientado pelo plano semanal que a própria Amélia desenvolve informaticamente (atenção que apesar da Amélia não ser moderna é actualizada) e distribui à sua equipa, incluindo a secretária do marido, para que todos saibam o que vai acontecer, como, quando, onde e porquê. E é assim que as pratas da casa estão sempre impecáveis, polidas e lustrosas, os armários limpos por dentro e por fora, tudo um primor, tudo impecável, tal qual a arreliante Amélia.
Neste momento impõe-se cuidado com as suposições que já podem permear o espírito: a enervante Amélia não é uma mulher oca, perdida nas lides caseiras. É uma mulher inteligente e informada, com conversa para qualquer círculo intelectualmente mais exigente. Fala com a naturalidade do conhecimento sobre literatura, artes, política e principais angústias da sociedade actual. Tem opiniões seguras sobre quase tudo, e se não as tem, procura atentamente adquiri-las, lendo os principais jornais, os livros especializados na matéria e acedendo à internet na busca de artigos e opiniões variadas sobre a questão. É com o mesmo critério que a Amélia cuida de seu corpo: aplicada, vai três vezes por semana ao Health Club onde pratica Pilates seguido de exercício cardiovascular e tonificação orientada pelo seu Personal Trainer. Corpo são, mente sã? Com certeza. E Amélia pode dar-se a esse luxo pois afinal é co-proprietária de uma pequena fortuna, desenvolvida a par e passo com seu marido João Miguel dos Santos Pereira, na construção. Hoje detêm meios suficientes para garantir uma aposentadoria segura e de confortável luxo. Tudo isto muito merecido. Herdou, é certo, algum dinheiro de seus Pais. Contudo foi na sua parceria matrimonial que obteve as recompensas acima mencionadas. O João Miguel é um homem inteligente e trabalhador que a Amélia secundou integralmente, tendo, inclusive, prestado todo o apoio na gestão das finanças do casal, matéria fácil para a primogénita de um economista. Está-lhe nos genes. Assim como lhe está nos genes as qualidades de Mãe atenta. Todos os três filhos obtiveram os cuidados maternais em dose disciplinadora e pragmática, fermento essencial para solidificar espíritos sensatos. Para Amélia a família é o seu bem primordial. O único ponto fraco de Amélia é tão honrável que contribui para maior aprovação social. Tudo se faz pelo bem estar de todos e cada um de membros de sua família. Assim todos os três filhos são doutorados em matérias relevantes para o progresso humano: engenharia genética, desenvolvimento de sistemas informáticos e cirurgia plástica.
Será que já estão tão irritados quanto eu? Porque, convenhamos, uma mulher assim irrita qualquer mortal. Não? Então, tenho eu motivos de sobra que despoletam tanta aversão. Vejamos: contra sua elegância cuidada, estão os meus cabelos em desalinho displicentemente controlados por ganchos e elásticos e toda a parafernália cabelística disponível em qualquer loja dos trezentos. Quanto aos cuidados do corpo saio-me um pouco melhor, pois gosto bastante do suor escorrido pelo corpo depois de uma hora de corrida. Saio assim, do mesmo clube que a Amélia frequenta, com a face carmim de esforço, afogueada, suada e pegajosa. Por outro lado, sou amante de uma boa refeição tradicional, nomeadamente cabrito assado e bacalhau, esse em qualquer das variações culinárias portuguesas. Tudo isto, é claro, regado de um bom vinho, que necessita somente de ser razoável. O corpo esse não perdoa, e tenho aqueles quilos extras de estimação, fruto de alguma falta disciplinar gastronómica. Complemento todas estas faltas, pequenas em si, com o hábito muito pouco feminino de apreciar umas cigarrilhas, principalmente em circunstâncias sociais. Onde a Amélia é um exemplo de serenidade, a palavra certa, o cumprimento e disposição adequada, o comentário inteligente e pertinente, eu falho redundantemente, com um hesitante pestanejar sobre o desconhecido, o riso descontrolado, inútil e descabido, desencadeado pela leitura errónea de um qualquer comentário de salão. A Amélia, com sua pose e controle, acentua a minha insegurança, que tanto esforço faço para esconder. E, isto é só o começo. A matéria familiar preocupa-me sobremaneira. Invejo os filhos impecáveis da senhora, invejo sua disponibilidade de Mãe de família, invejo a capacidade de organizar toda a sua entourage, e o mérito dos resultados conseguidos. Os filhos da Amélia são simpáticos, educados e fundamentalmente boas pessoas. Carinhosos com suas mulheres e seus progenitores, participativos no seio familiar, nenhuma ausência ao jantar primoroso que a Amélia organiza às Quartas-feiras, com o fim de promover o convívio de seu tão amado grupo. Os sogros e os Pais também são devidamente convidados e incluídos conforme a sua disponibilidade. A Amélia recebe-os sempre com carinho especial, lembrando-se do queijo da Serra preferido do Sogro e da toalha bordada pela sua Mãe. Eu, pelo meu lado, pago todo este exemplo de bem estar, com uma assídua incompatibilidade de estilo ou valores junto aos meus e em especial, claro está, para com a família do meu marido, dando assim por verdade incontornável a tradicional rivalidade com a Sogra. Junto de minhas duas filhas tenho obtido resultados irregulares na sua organização, quiçá fruto da minha genética imperfeita. Assim, não é raro ver-me a braços com a minha primogénita, que cisma em desenvolver penteados e vestimentas extravagantes, ameaçando-me com planos de piercings ou tatuagens. Qualquer das minhas filhas são motivo de muita preocupação e resultado da minha falta de jeito para a maternidade. Falta-me a disciplina emocional e a disponibilidade intelectual necessárias para compor um bom retrato de Mãe. Assim, entre discussões e abraços, estou a fermentar não sei bem que resultado, incerto futuro da Humanidade. Já relativamente ao matrimónio encontro-me em melhor situação. O meu marido é um homem de convívio fácil e é muito trabalhador. Está claro que procuro contribuir para o sucesso financeiro familiar mas, para meu desencanto, muitas vezes cedo à tentação de uma roupa de marca qualquer, cara e inútil. Onde a Amélia é discernimento, eu sou tentação! Esta mulher segura, protectora de si e dos seus, elegante na sociedade, benefício patente para o mais alto valor moral, nos difíceis tempos que correm, mais valia não existir. Todos os dias me faz sentir pequena e desprovida de carácter, preguiçosa e desajeitada. Detesto esta mulher! O pior é que esta Amélia, sou eu.
Anamar
14 de Janeiro de 2007
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