Translate

quarta-feira, 29 de abril de 2009

O Dia da Pedra

Sábado, 11:30: Enfiei a pedra no bolso direito da calça preta. Há que ser honesta: o meu TPC parece-me fácil. Especialmente tendo em consideração os presentes trocados entre as outras colegas de curso. Como é que a Madalena vai-se virar com a pinha? No mínimo irá divertir-se imenso na procura de soluções engenhosas para andar com a pinha e o seu saquito azul turquesa. Quanto à minha pedra nada me assusta. Nada de pedras no pé, pedras do caminho, nem tropeçar na pedra. Basta-me calmamente andar com a pedra no bolso, sem que ninguém dê por ela. Até porque a pedra em questão é de tamanho muito jeitoso, uns quatro dedos de par-a-par, e forma de raia do mar. Cabe em qualquer algibeira. Não é nem agressivamente angulosa, nem rugosa. Limita-se a ter uma aresta e duas abas, suficientemente discreta para o concavo entre a perna e a anca. Nota-se a aresta. Subitamente um pensamento me assalta: um espectador atento pode intrigar-se com um volume masculino nas calças de uma mulher. A cor preta e o tecido grosso de algodão servem, contudo, de pano de fundo, às avessas, e minimizam a minha preocupação.

...Lá pelo meio dia: Decidimos fazer uma excursão à baixa de Lisboa. Saímos os três, o António e a nossa filha Francisca, no Volvo. E não é que o raio da pedra não me incomoda? Já sentada tal co-pilota, desço a mão ao bolso para certificar-me que ainda lá tenho a dita cuja. Boas notícias: TPC em progresso. Seguimos a Marginal, conduzidos pela beleza da paisagem que só esta faixa de terra-mar proporciona. Passa a praia de Carcavelos e augusto forte, passa o Bugio fugidio, passa o esguicho depois do amarelinho forte de Paço D`Arcos, passa a casa esquecida e sua fabulosa varanda, como que a anunciar o desaguar no Tejo em Oeiras já cidade, passam, em conjunto arquitectónico bem planeado, a Torre de Belém e o CCB, o Infante D. Henrique e sua esquadra marítima, navegando por mares onde muitos navegam, passa a fabulosa ponte sobre o Tejo, grande monumento de eiféllico ferro. Por fim chegamos ao Cais do Sodré e subimos para o Chiado, solarengo e branco, justamente comandado por Camões, poeta persistente da nossa amada terra portuguesa. Camões a tudo resiste e, tal como Homero, ao tempo, mas também às pombas da praça, que cismam em pousar e fazer das suas onde respeito seria devido. O António estaciona o carro no parque, agora muito conveniente, modernidades de cidade europeia, por baixo de Camões que, coitadinho, nem soube que seria erigido sobre o Marialva, Casanova à português.

Lisboa, 13:02 (desculpem-me o preciosismo, mas apeteceu-me. Prerrogativas de artista e ensaiante): Descemos o Chiado via Benneton, paragem obrigatória de jovens meninas, e aterramos finalmente na FNAC, espaço sem preconceitos e democrático, para todas as idades e géneros. Depois de vaguearmos entre livros, CDs e DVDs, finalizamos uma compra sadia e equilibrada de um pouco para todos. A fome apertou.

Chiado, um quarto para as três: Subimos em passo expedito e sem hesitações para o Entrecotte. O que por essa altura me incomodava era uma dorzinha matreira no joelho direito. Da pedra nada. Saboreamos o óbvio bife do lugar e um Bordaux qualquer francês. Tudo me pareceu divino perante um estômago bastante arreliado. No fim nem pedra nem dorzinha, tudo derretido na languidez imposta pela saborosa refeição.

Cascais, cinco da tarde: Que sonecazinha. Soube-me tão bem. Fossem todas as pedras assim! Sento-me para organizar a semana. Actualizo horários, distribuo tarefas, defino o menu e encomendo ao Continente on-line as compras da semana. Preparo a actividades do dia seguinte, telefonemas e pequenos trabalhos, anotando na agenda de fazeres. Vou ajudar a Francisca com os TPCs, bastante mais trabalhosos do que este em desenvolvimento.

Primeiro andar, cozinha, oito e meia da noite: Lá se foi o Verão. Já é noite a esta hora. Preparo o minha rotina de lanche dos Domingos. Nada mais reconfortante do que fazer as mesmas coisinhas e comidinhas simples e rápidas. Tosta mista e um copo de vinho branco fresco. Pergunto se alguém é servido, a fugir de trabalhos. A noite de Domingo é o meu recreio.

Já são 10 da noite: As perguntas de sempre, em sequência ritmada pela experiência: se escovaram os dentes, se pentearam cabelos, se lavaram as mãos, se tomaram os remédios, se as mochilas estão prontas, enfim uma ladainha materna que obtém os costumeiros “tá; Mãe”, “já sei”, “não precisas repetir” etc...tudo arrematado quanto baste com “beijinhos minha querida e dorme bem, sonha com os anjos”.

22:30: Finalmente um desafio! Tenho que mover a pedra para o bolso do confortável pijama às florinhas. Este tem um bolso na blusa, lugar perfeito para acomodar a pedra. Garanto sua segurança, e a minha, com dois alfinetes de bebé a grampear a saída da pedra, não vá causar dissabores nocturnos. Nesse momento sobressaltou-me algumas dúvidas quanto as probabilidades da pedra me magoar. Li o livro “bird by bird” de Anne Lamott, um recente sucesso de bilheteira, imaginem só, sobre como escrever. Meia hora de pois apaguei a luz e dormi consideravelmente bem para quem anda com pedras no bolso.

Manhã seguinte (esta memória descritiva está a dar mais trabalho do que andar de pedra): Pequeno almoço. Pedra ainda no bolso do pijama. As jovens senhoras saem para os respectivos colégios. Sento-me para ver e-mails. Decido estrategicamente continuar de pijama até terminar as 24 horas. A única alteração é reunir-me com as empregadas para entregar a semana planeada e explicar particularidades de consultas médicas, a que dias, quem é responsável. Às 11 e 30 em ponto tiro a pedra do bolso com sentido de desafio cumprido. A vida continua. A pedra essa fica em cima da secretaria juntamente com os dois alfinetes à espera do dia de entrega de TPC.

Esta pedra faz-me lembrar as do coração, aquelas que transportamos pela vida sem que ninguém perceba aquele pequeno peso na alma.

Anamar
19 de Setembro de 2006

Sem comentários:

Enviar um comentário