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quinta-feira, 30 de abril de 2009

A minha má Avó


Intransigente e irascível, a minha avó Dalva tinha daquelas barrigas inchadas pela acumulação de fermentações de mau feitio que só se adquire com o exercício contínuo de intolerâncias generalizadas para com todos os que, do seu pelouro iminentemente matriarcal, julgava não serem dignos de sua boa vontade. E isso era muita gente. As mãos sofriam há anos de artrite deformante, tendo-se transmutado em garras afiadas que tal como a sua língua parecia procurar oportunidades de pequenas vinganças quotidianas, preferencialmente sobre pessoas inadvertidas pela inocência da infância. Era uma figura imponente. Não era alta e não era obesa. Cheia sim, de rancores e de faltas de amor, alimentadas por amiúde perseguições, quer às empregadas quer a crianças, seus objectos favoritos de constantes implicações e desfavor. Outra particularidade marcante residia no seu timbre de voz esganiçado e mandante, exigente de obediência e subserviência, daqueles que acentua a última sílaba de qualquer nome sem piedade ou carinho. A maior incongruência dessa personalidade maltrantante prendia-se com uma cabeleira luxuriante, que exibia vaidosa, toda prata, desde os seu 40 anos, cuidada com Laquê Silver Highlights comprado ou mandado vir do Harrolds em Londres. Essa sim, causava-me dúvidas sobre a verdadeira natureza de sua maldade. Porque era lindíssima e deixava antever a beleza e natureza fogosa de que um dia fora possuidora. E dessa pista nunca fui ignorante. Como, perguntava-me eu, poderia a vida ter transformado um ser belo em tal resultado. Havia algo de mágico, na minha Avó. Qualquer processo alquímico que em revés, cria mal do ouro. Até porque um, fiquei sabedora da origem do seu nome: Seu Pai, Armando Aguinaga, professor distinto e valoroso médico parteiro e ginecologista, dando à luz por suas próprias mãos à sua primogénita, olhou para o céu onde já deambulava brilhante a estrela Dalva, nome que prontamente fez merecer à sua “coisa mais linda”, a minha Avó. A partir desse nascimento tão abençoado, nunca o meu Bisavô condescendeu da sua preferência pela filha, nem mesmo tendo dado à vida a mais 11 filhos e filhas. Dalva permaneceu intocável no seu amor. Ora, perguntava-me eu, se de tanta poesia, podia a vida ter transformado tanta beleza em tanta maldade? Que desilusões escondia?
Anamar
11 de Fevereiro de 2006

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