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domingo, 20 de setembro de 2009

A Travessia

Sufoco. O calor do sol escaldante apaga qualquer memória das alegrias vividas.
Somos tantos nesta procissão lúgubre para a inevitável morte.
Eu sou mais um.
Mais um que sente sede, mais um mendigo amargo e resignado que estende a mão à benevolência celeste.
Mais um no deserto, sempre angustiado e só, sempre perdido e acompanhado.
Marchamos de forma lenta e pausada, exército da fome, exercício do mal.
O nosso ritmo fúnebre, agoira novas vidas, germes da existência, alimento de abutres. Não se desenha qualquer esperança.
Somos assim, grupo taciturno, mudo, moribundo.
As crianças e os jovens já há muito pereceram de desespero e infelicidade.
Estamos cegos e surdos.
Tão cegos que pisamos na esperança sem compreender, sem reconhecer, sem identificar aquele líquido sem fim, caixão asfixiante da procissão.
E eu que nunca vira tal coisa, tanta imensidão esvoaçante, entrego-me ao infinito… e levanto voo.

Anamar
Abril 2009

Entres...

Os cabelos vermelhos esvoaçavam infinitos como labaredas de fogo a jorrarem sobre o horizonte.
Contemplava as fronteiras entre terra e mar, mar e mundo, espaço alvos e suaves cheios de mudez.
Adorava os entres. Entrelinhas, entretanto, entrementes, entrelaçados, entregues, entre a vida e a morte, entre o tudo e o nada.
Todos os entres nada mais eram do que a definição tardia, mas fiel, de si própria, existência efémera, sem raízes, filha do mar.
Sentia barbatanas nos pés e cambaleava pela vida, em dúvida, em interrogação.

Anamar
Abril 2009

quinta-feira, 30 de abril de 2009

Cinderela

Amor,
Escrevo-te estas instruções porque quando me encontrares estarei em sono profundo,
hipnotizada pelo quotidiano da vida, máscara de bom e do bem.

E se de mim tiveres pena,
ou por alguma causa obscura a minha alma pálida despertar a tua fome,
atravessa sem hesitação o teu corpo sobre o meu,
profere todas as palavras sedutoras,
e explode a tua alma na minha.

Diz que me amas loucamente,
pede-me perdão por não te conteres em carícias,
e torna-te intruso.

Captura-me do meu sonho cruel,
impiedosamente corta-me as asas,
planta-me na tua terra
e faz-me raiz do teu desejo.

Se depois de tudo isto fazeres eu não despertar,
trespassa sem misericórdia a tua espada no meu coração,
porque afinal já estava morta sem remissão.

Anamar
Maio 2009

Land me

Revolving water fills my brain,
Disturbing, probing water, by sea tanned
Waters falling from deep blue skies
Cleansing and draining my sight

Why waters are you so mighty?
Hard and pure you sustain my breath
Floating and soaring I feel the pain
Healing, hastily killing my wounds.

Why are you so appealing?
Sensual and cold you suspend my hart
Pressing my soul, urging to fly.
Blue waters and white...
Through my eyes you cry green tears
Washed away…
Returning every and each day.

Land I seek and never find.

Anamar
2006

A minha má Avó


Intransigente e irascível, a minha avó Dalva tinha daquelas barrigas inchadas pela acumulação de fermentações de mau feitio que só se adquire com o exercício contínuo de intolerâncias generalizadas para com todos os que, do seu pelouro iminentemente matriarcal, julgava não serem dignos de sua boa vontade. E isso era muita gente. As mãos sofriam há anos de artrite deformante, tendo-se transmutado em garras afiadas que tal como a sua língua parecia procurar oportunidades de pequenas vinganças quotidianas, preferencialmente sobre pessoas inadvertidas pela inocência da infância. Era uma figura imponente. Não era alta e não era obesa. Cheia sim, de rancores e de faltas de amor, alimentadas por amiúde perseguições, quer às empregadas quer a crianças, seus objectos favoritos de constantes implicações e desfavor. Outra particularidade marcante residia no seu timbre de voz esganiçado e mandante, exigente de obediência e subserviência, daqueles que acentua a última sílaba de qualquer nome sem piedade ou carinho. A maior incongruência dessa personalidade maltrantante prendia-se com uma cabeleira luxuriante, que exibia vaidosa, toda prata, desde os seu 40 anos, cuidada com Laquê Silver Highlights comprado ou mandado vir do Harrolds em Londres. Essa sim, causava-me dúvidas sobre a verdadeira natureza de sua maldade. Porque era lindíssima e deixava antever a beleza e natureza fogosa de que um dia fora possuidora. E dessa pista nunca fui ignorante. Como, perguntava-me eu, poderia a vida ter transformado um ser belo em tal resultado. Havia algo de mágico, na minha Avó. Qualquer processo alquímico que em revés, cria mal do ouro. Até porque um, fiquei sabedora da origem do seu nome: Seu Pai, Armando Aguinaga, professor distinto e valoroso médico parteiro e ginecologista, dando à luz por suas próprias mãos à sua primogénita, olhou para o céu onde já deambulava brilhante a estrela Dalva, nome que prontamente fez merecer à sua “coisa mais linda”, a minha Avó. A partir desse nascimento tão abençoado, nunca o meu Bisavô condescendeu da sua preferência pela filha, nem mesmo tendo dado à vida a mais 11 filhos e filhas. Dalva permaneceu intocável no seu amor. Ora, perguntava-me eu, se de tanta poesia, podia a vida ter transformado tanta beleza em tanta maldade? Que desilusões escondia?
Anamar
11 de Fevereiro de 2006

Amélia

Detesto aquela mulher. A Amélia é um género de mulher que mexe com as minhas entranhas, que me irrita e entedia num compasso persistente, que nem sua elegante simpatia, distribuída de forma casual e democrática, nem a sua correcta aparência de senhora da casa e dos seus, mitiga. Pelo contrário. É exactamente toda essa correcção que acho insidiosa. O objecto de generalizada aprovação social, despoleta em mim a desconfiança profunda da perfeição. Afinal de contas, para meu descanso mental, perfeição humana não existe. Talvez não exista sequer perfeição divina, quanto mais aqui neste chão, junto a meros terráqueos, plateia de segunda no teatro da existência. A minha atitude perante a perfeição é dogmática, é certo, mas, reconheçamos, gentil para com a humanidade em geral, onde, obviamente, não tenho outra alternativa senão me inserir. Estou viva, e a perfeição, essa, nem morta está. E é neste lusco-fusco que se situam mulheres como a Amélia. Mulher-raiz, importantíssima para a sobrevivência de valores básicos da sociedade ocidental como a família, a sobriedade e moderação, enfim, a Pátria, e tudo... Assim é a maçadora da Amélia. Do cimo dos seus 60 anos, governa com mão forte e cuidada uma família composta por marido e três filhos, todos formados e casados, já com netinhos a assegurar a sucessão, a qualidade da transmissão genética.
A insensível da Amélia foi uma bela mulher e vê-se. Continua a manter um bonito ar sereno, próprio da maturidade, com um quê de distanciamento, costumeiro nas mulheres de beleza excepcional, truque desenvolvido com a finalidade de afastar assédios impróprios. Alta e altiva, corpo modelado e firme, cabeleira farta e reluzente, trazida curta e sempre cuidada, criteriosamente penteada, Amélia veste-se com cuidados de malvadez, tudo certo, tudo próprio a uma senhora digna e elegante da melhor sociedade portuguesa. Aliás parece-me que as Amélias duplicam-se, esparsa e preferencialmente, num extracto social alto de qualquer país ocidental, inclusive do outro lado no Oceano Atlântico.
Esta minha exasperante Amélia é um ícone de boa execução feminina. A mulher ideal, aquela que todas as mulheres almejam ser um dia, Amélia é sumamente competente naquilo que está convencionado se o papel da mulher: a sua casa é impecavelmente mantida, as criadas organizadas e treinadas na realização primorosa das tarefas caseiras, o motorista também sabe servir à mesa, tudo orientado pelo plano semanal que a própria Amélia desenvolve informaticamente (atenção que apesar da Amélia não ser moderna é actualizada) e distribui à sua equipa, incluindo a secretária do marido, para que todos saibam o que vai acontecer, como, quando, onde e porquê. E é assim que as pratas da casa estão sempre impecáveis, polidas e lustrosas, os armários limpos por dentro e por fora, tudo um primor, tudo impecável, tal qual a arreliante Amélia.
Neste momento impõe-se cuidado com as suposições que já podem permear o espírito: a enervante Amélia não é uma mulher oca, perdida nas lides caseiras. É uma mulher inteligente e informada, com conversa para qualquer círculo intelectualmente mais exigente. Fala com a naturalidade do conhecimento sobre literatura, artes, política e principais angústias da sociedade actual. Tem opiniões seguras sobre quase tudo, e se não as tem, procura atentamente adquiri-las, lendo os principais jornais, os livros especializados na matéria e acedendo à internet na busca de artigos e opiniões variadas sobre a questão. É com o mesmo critério que a Amélia cuida de seu corpo: aplicada, vai três vezes por semana ao Health Club onde pratica Pilates seguido de exercício cardiovascular e tonificação orientada pelo seu Personal Trainer. Corpo são, mente sã? Com certeza. E Amélia pode dar-se a esse luxo pois afinal é co-proprietária de uma pequena fortuna, desenvolvida a par e passo com seu marido João Miguel dos Santos Pereira, na construção. Hoje detêm meios suficientes para garantir uma aposentadoria segura e de confortável luxo. Tudo isto muito merecido. Herdou, é certo, algum dinheiro de seus Pais. Contudo foi na sua parceria matrimonial que obteve as recompensas acima mencionadas. O João Miguel é um homem inteligente e trabalhador que a Amélia secundou integralmente, tendo, inclusive, prestado todo o apoio na gestão das finanças do casal, matéria fácil para a primogénita de um economista. Está-lhe nos genes. Assim como lhe está nos genes as qualidades de Mãe atenta. Todos os três filhos obtiveram os cuidados maternais em dose disciplinadora e pragmática, fermento essencial para solidificar espíritos sensatos. Para Amélia a família é o seu bem primordial. O único ponto fraco de Amélia é tão honrável que contribui para maior aprovação social. Tudo se faz pelo bem estar de todos e cada um de membros de sua família. Assim todos os três filhos são doutorados em matérias relevantes para o progresso humano: engenharia genética, desenvolvimento de sistemas informáticos e cirurgia plástica.
Será que já estão tão irritados quanto eu? Porque, convenhamos, uma mulher assim irrita qualquer mortal. Não? Então, tenho eu motivos de sobra que despoletam tanta aversão. Vejamos: contra sua elegância cuidada, estão os meus cabelos em desalinho displicentemente controlados por ganchos e elásticos e toda a parafernália cabelística disponível em qualquer loja dos trezentos. Quanto aos cuidados do corpo saio-me um pouco melhor, pois gosto bastante do suor escorrido pelo corpo depois de uma hora de corrida. Saio assim, do mesmo clube que a Amélia frequenta, com a face carmim de esforço, afogueada, suada e pegajosa. Por outro lado, sou amante de uma boa refeição tradicional, nomeadamente cabrito assado e bacalhau, esse em qualquer das variações culinárias portuguesas. Tudo isto, é claro, regado de um bom vinho, que necessita somente de ser razoável. O corpo esse não perdoa, e tenho aqueles quilos extras de estimação, fruto de alguma falta disciplinar gastronómica. Complemento todas estas faltas, pequenas em si, com o hábito muito pouco feminino de apreciar umas cigarrilhas, principalmente em circunstâncias sociais. Onde a Amélia é um exemplo de serenidade, a palavra certa, o cumprimento e disposição adequada, o comentário inteligente e pertinente, eu falho redundantemente, com um hesitante pestanejar sobre o desconhecido, o riso descontrolado, inútil e descabido, desencadeado pela leitura errónea de um qualquer comentário de salão. A Amélia, com sua pose e controle, acentua a minha insegurança, que tanto esforço faço para esconder. E, isto é só o começo. A matéria familiar preocupa-me sobremaneira. Invejo os filhos impecáveis da senhora, invejo sua disponibilidade de Mãe de família, invejo a capacidade de organizar toda a sua entourage, e o mérito dos resultados conseguidos. Os filhos da Amélia são simpáticos, educados e fundamentalmente boas pessoas. Carinhosos com suas mulheres e seus progenitores, participativos no seio familiar, nenhuma ausência ao jantar primoroso que a Amélia organiza às Quartas-feiras, com o fim de promover o convívio de seu tão amado grupo. Os sogros e os Pais também são devidamente convidados e incluídos conforme a sua disponibilidade. A Amélia recebe-os sempre com carinho especial, lembrando-se do queijo da Serra preferido do Sogro e da toalha bordada pela sua Mãe. Eu, pelo meu lado, pago todo este exemplo de bem estar, com uma assídua incompatibilidade de estilo ou valores junto aos meus e em especial, claro está, para com a família do meu marido, dando assim por verdade incontornável a tradicional rivalidade com a Sogra. Junto de minhas duas filhas tenho obtido resultados irregulares na sua organização, quiçá fruto da minha genética imperfeita. Assim, não é raro ver-me a braços com a minha primogénita, que cisma em desenvolver penteados e vestimentas extravagantes, ameaçando-me com planos de piercings ou tatuagens. Qualquer das minhas filhas são motivo de muita preocupação e resultado da minha falta de jeito para a maternidade. Falta-me a disciplina emocional e a disponibilidade intelectual necessárias para compor um bom retrato de Mãe. Assim, entre discussões e abraços, estou a fermentar não sei bem que resultado, incerto futuro da Humanidade. Já relativamente ao matrimónio encontro-me em melhor situação. O meu marido é um homem de convívio fácil e é muito trabalhador. Está claro que procuro contribuir para o sucesso financeiro familiar mas, para meu desencanto, muitas vezes cedo à tentação de uma roupa de marca qualquer, cara e inútil. Onde a Amélia é discernimento, eu sou tentação! Esta mulher segura, protectora de si e dos seus, elegante na sociedade, benefício patente para o mais alto valor moral, nos difíceis tempos que correm, mais valia não existir. Todos os dias me faz sentir pequena e desprovida de carácter, preguiçosa e desajeitada. Detesto esta mulher! O pior é que esta Amélia, sou eu.

Anamar
14 de Janeiro de 2007

Filomena

Tinha-se isolado no atelier. Mergulhava absorvida no tríptico fotográfico que ocupava sua atenção criativa já há uma semana. Fechara todas as portas de comunicação com o exterior e descansava no sossego da ausência de ruídos. O mundo lhe parecia um enigma labiríntico de excessivos estímulos. Preferia, se tal lhe tivesse sido concedido, perceber menos, sentir menos, viver mais indiferente às emoções, preocupações e desesperos interiores que adivinhava nas pessoas. Não lhe tinha sido poupado nada. Captava contrariada todas as vivencias, escolhas, decisões, rejeições e hesitações humanas. Era um verdadeiro inferno interior, o seu, o dos outros.
Flor, a sua gata malhada dançou languidamente entre suas pernas, acariciando-a com calidez, limpando-a de toda a complexidade da afectividade humana. -Olá bichaninha, que bom estares comigo! Filomena tinha salvo a bebé abandonada na rua, certa de que seu destino era morrer de fome. (história da flor). Agora era recompensada com um afecto incomum e sólido, nada típico de gatos. Filomena chorou. Lágrimas gordas mas calmas que enfeitaram o piso da sua existência, lavando-se, lavando Flôr, brindando o chão com pérolas líquidas. Filomena simplesmente não era comum. Os Deuses tinham-lhe agraciado demasiados atributos físicos e espirituais. Criaram, na sua inconsequênte diversão, uma parodoxa boneca inteligente. Sob os seus olhos de gata, nem esmeralda, nem azuis, sob cabelos fartamente dourados e sublinhados por um sorriso largo e sincero, existia uma mente densamente lúcida, povoada por uma imaginação febril e fertil. Era um enigma, pessoal e intransmisível.
Enquanto criança tinha esboçado inúmeras preçes inúteis. Pedia, inconsolável, por menos. E cada vez que resava, os Deuses, esses malditos, riam-se jocosamente e atribuiam-lhe mais de si mesma. Mais sensibilidade e mais consciência, roubando-lhe a paz da ignorância. Tinha por dessa forma inusitada envelhecido precocemente. Uma das certezas do progresso da vida (ou da morte conforme o gosto mais ou menos mórbido de cada um) reside na agraciação de auto conhecimento, formula gradual e simples adjudicada democraticamente a todos os humanos, que tende a culminar em uma acentuação de traços de personalidade, muitas vezes caricatos e maníacos. É assim que se produzem aqueles velhotes amansados, que falam com os pombos da praça. Falansse-se. Filomena era assim, jovem por fora e velha por dentro, fruto de todas da orquestra de vozes do mundo que a rodeava.

A família receava as particularidades algo excêntricas, de Filomena. Porque chorava aquela criança? Afinal tinha tudo o que realmente importava para viver bem no nosso mundo. Era bonita. E que mais importava numa mulher? Não era a beleza o melhor dos bens? Ou a pior das maldições, chorava Filomena sobre os seus quadros. Este recente trabalho explanado na sua plataforma de pintura abordava o tema de metamorfoses, entre ela e a Flor. Tinha ensaiado cuidadosamente uma série de fotografias compostas de traços comuns, trocado orelhas, olhos e narizes de tal forma a criar duas criaturas Osíricas. Faltava-lhe o código. Qualquer elemento que para si mesma iria se constituir na peça fundamental deste puzzle. A sua atenção foi resgatada. Interrogativa observava agora o tríptico. Mecanicamente escolheu um CD da sua colecção de preferências. Os Linking Park passaram a povoar o espaço sonoro de seu atelier. Era uma música feroz com uma lírica inquieta. Iniciou o ritual da criação. Com uma espátula larga espalhou uma fina e irregular camada de massa. Transformou a massa com gestos rápidos. O ritmo de suas mãos era metodicamente incontrolável. Faziam uma triangulação com os olhos e adquiriam o ritmo da alma. Progressivamente entrou num estado hipnótico. Já nada importava que não fosse aquele compasso lírico. –Filomena, o jantar está na mesa - chamou a Dona Maria do Céu, sua mãe. Tinham-se passado três horas. Filomena acordou do transe que por ter sido interrompido antes do seu tempo deixou uma espécie de alienada presença na resposta. –Já vou, Mãe. Lavou cuidadosamente vários pincéis, despejou a água turva das canecas e fechou os potes de tinta acrílica. Organizou o material de seu trabalho e desceu as escadas. Entrou na sala de jantar, pediu desculpas pelo atraso e sentou-se à mesa. A D. Maria do Céu esboçou aquele gesto de ombros entre o desagradado e o desdém.
Na mesa estavam sentados na cabeceira o Pai, Engenheiro Augusto de Albuquerque Neves, como qualquer Pai que se preze, dono e senhor das suas propriedades, comandante máximo das tropas do cotidiano, à sua direita D. Maria do Céu, anteriormente Teixeira e Santos e já há um quarto de século Santos de Albuquerque e Neves, pela graça de Deus e a santa tolerância de D. Maria do Céu para com os resistentes/persistentes/incorrigíveis defeitos de comportamento do Engenheiro seu digníssimo marido. Miguel Augusto, o filho varão estava sentado em frente à Mãe, seguido e de forma alternada encontravam-se José Maria, Maria das Dores, Maria do Carmo, Filomena (sem Maria pelo cansaço de tantas mariisse....) e Duarte, o novíssimo. Entre Miguel e Filomena, 24 e 15 anos respectivamente distribuíam-se os outros 4 filhos em intervalos de ano, ano e meio, dando conta da fogosidade e empenho com que o Sr. Engenheiro preenchia suas obrigações matrimoniais. Nada de estranhar pois na realidade D. Maria do Céu tinha sido considerada uma das raparigas mais bonitas de sua cidade, uma morena de pele alvíssima, olhos amendoados e boca pequena e vermelha.

Num voo de pombas brancas, um corvo negro junta-lhe um acréscimo de beleza que a candura de um cisne não traria. "Decameron" - Giovanni Boccaccio

Anamar
13 de Julho de 2006

Da minha vida

Muito bem. Estou mais uma vez aqui. Espelho, espelho meu quem é mais bela do que eu? E isso interessa agora? Oitenta anos Marta Faria. Oitenta, nada menos, quantos mais…Humm…Surpresa das surpresas, não esperavas chegar até aqui. Insistias em sessentas e picos. Afinal muitos picos. Muitos mais anos, enormidades de segundos, mais obstáculos, mais trabalho, mais pessoas e kilometros de pensamentos! E se os pensamentos pudessem ser arquivados, terias criado a biblioteca perdida da Alexandria! Mas não. Agora correm soltos por aí, energia por condensar, tal qual ondas de rádio sem receptor, trespassando corpos. Quem sabe para a próxima vida?
Juízo mulher! Atenção estás aqui para reflectir sobre o que fizeste da tua vida! Da, percebes? Não, na. Rio-me de mim mesma. Faço uma cómica parceria com o reflexo do espelho. Careta, lado e outro lado. Ajeito o cabelo. Observo-me. Dou um íntimo obrigado aos inventores do Botox e das mais variadas técnicas de aperfeiçoamento físico. Gosto da face que vejo, velha. Gosto do corpo que toco, boas pernas firmes e fortes, assentes na terra. E muito uso fiz da minhas qualidades de assentamento. Sem estas pernas podia ter voado passarinhadamente, coisa que por ventura atirar-me-ia para vazios perigosos. Assim na vida fiz as coisas normais, banais até, como casar e criar duas filhas, a trabalheira que dá, suar para comprar casa, organizá-la, garantir engrenagens oleadas para que a minha vida e dos meus fosse menos irritadiça. Passar, lavar, cozinhar, merendinhas pra´s meninas, leva-e-tráz escolares e coisas desse género é que, confesso, fiz o mínimo possível. Sempre detestei visceralmente esse tipo de coutidiano pequenino, feito de gestos femininos, supostamente. Ritmos hipnóticos e autistas. Porque ocupar a vida com movimentos sem conteúdo não foi desporto que tenha praticado com gusto. Na vida há que escolher os vazios. Prefiro vazios desocupados e preguiçosos. Regados por um bom tinto do Douro, vinhos encorpados mas suaves no tracto digestivo, acompanhados do pecado sublime de um tablete de chocolate de leite, a derreter na boca e nas mãos, obrigando aquele gesto, sensual de lamber as pontinhas dos dedos, um a um. Que combinação de sentidos esplêndida! Permaneço nos meus oitenta anos totalmente fiel aos meus lânguidos vazios de chocolate e vinho. Afinal há que cuidar do corpo! São as fidelidades possíveis.
As minhas opções “normais” , e nem adianta questionar a nulidade do conceito do normal, inexistências afinal, revelaram-se surpreendentemente recompensadoras apesar da minha constante hesitação e grande desconfiança da normalidade. Um marido, duas filhas e três netos parecem-me uma pauta de música bem desenhada, principalmente considerando que, excluindo alguns desaires e tropeços insignificantes, a saúde escolheu moradia na minha família. E saúde na minha idade já cá conta! Com excepção dos milhentos pensamentos por segundo, tormento que vou dominando na escolha da sanidade. Lanço um xôxô estaladiço ao meu reflexo. You are OK kid.
E continuas aqui para baralhar a importantíssima reflexão sobre a tal questão do da e não do na. Segue-se então pensamentos filosoficamente densos sobre o da. Na da. A vida é assim. Não se faz dela nada que não se faça nela. Tal como os amores, a virtualidade mata-a. Não importa se se ama. Importa sim como. E de comos tenho a vida cheia. Como acalentei as minhas meninas nos momentos de dor, como apoiei e fiquei presente e inteira em momentos de percalço financeiro do meu marido, como lutei para que tivéssemos uma relação mais verdadeira, menos rotulada e mais justa para minha parte da parceria, como soube escolher os presentinhos carinhosos para os amigos, como telefonei nas horas certas e erradas para os que precisavam de ouvido e sentei com eles horas a fio, como lembrei-me de dizer aquelas palavras sábias para muitas pessoas desesperadas ou confusas. Como prestei atenção aos meus. Meus parceiros, meus amigos, meus empregados, meus mundos. E tantos outros como que só eu mesma podia saber fazer, por mim e pelos outros. Como emprestei motor e direcção às nossas empresas, como venci barreiras nos estudos e em particular no trabalho, sem nunca abdicar da minha feminilidade e condição de mulher, como conquistei o espaço de artista por conta própria e de mais ninguém, como visitei todos os meus pensamentos e encarei todas as emoções desproporcionadas e vadias, como vacilei pouco de mim mesma mesmo perdida e assustada, olhei no espelho cega, mas com coragem, como optei por outros quando imprescindível e apesar da raiva e mágoa de mim sobre a ausência mim. Como, enfim, pausei em toda a rotulagem cómoda e irresponsável e cuidadosamente guardei etiquetas numa cofre interior e usei de toda a paciência para redimensionar, alargar, lateralizar, multifacetar o reflexo humano. E se é de reflexo que tratamos, ondas nada mais.

Anamar
13 de Setembro de 2006

quarta-feira, 29 de abril de 2009

O Dia da Pedra

Sábado, 11:30: Enfiei a pedra no bolso direito da calça preta. Há que ser honesta: o meu TPC parece-me fácil. Especialmente tendo em consideração os presentes trocados entre as outras colegas de curso. Como é que a Madalena vai-se virar com a pinha? No mínimo irá divertir-se imenso na procura de soluções engenhosas para andar com a pinha e o seu saquito azul turquesa. Quanto à minha pedra nada me assusta. Nada de pedras no pé, pedras do caminho, nem tropeçar na pedra. Basta-me calmamente andar com a pedra no bolso, sem que ninguém dê por ela. Até porque a pedra em questão é de tamanho muito jeitoso, uns quatro dedos de par-a-par, e forma de raia do mar. Cabe em qualquer algibeira. Não é nem agressivamente angulosa, nem rugosa. Limita-se a ter uma aresta e duas abas, suficientemente discreta para o concavo entre a perna e a anca. Nota-se a aresta. Subitamente um pensamento me assalta: um espectador atento pode intrigar-se com um volume masculino nas calças de uma mulher. A cor preta e o tecido grosso de algodão servem, contudo, de pano de fundo, às avessas, e minimizam a minha preocupação.

...Lá pelo meio dia: Decidimos fazer uma excursão à baixa de Lisboa. Saímos os três, o António e a nossa filha Francisca, no Volvo. E não é que o raio da pedra não me incomoda? Já sentada tal co-pilota, desço a mão ao bolso para certificar-me que ainda lá tenho a dita cuja. Boas notícias: TPC em progresso. Seguimos a Marginal, conduzidos pela beleza da paisagem que só esta faixa de terra-mar proporciona. Passa a praia de Carcavelos e augusto forte, passa o Bugio fugidio, passa o esguicho depois do amarelinho forte de Paço D`Arcos, passa a casa esquecida e sua fabulosa varanda, como que a anunciar o desaguar no Tejo em Oeiras já cidade, passam, em conjunto arquitectónico bem planeado, a Torre de Belém e o CCB, o Infante D. Henrique e sua esquadra marítima, navegando por mares onde muitos navegam, passa a fabulosa ponte sobre o Tejo, grande monumento de eiféllico ferro. Por fim chegamos ao Cais do Sodré e subimos para o Chiado, solarengo e branco, justamente comandado por Camões, poeta persistente da nossa amada terra portuguesa. Camões a tudo resiste e, tal como Homero, ao tempo, mas também às pombas da praça, que cismam em pousar e fazer das suas onde respeito seria devido. O António estaciona o carro no parque, agora muito conveniente, modernidades de cidade europeia, por baixo de Camões que, coitadinho, nem soube que seria erigido sobre o Marialva, Casanova à português.

Lisboa, 13:02 (desculpem-me o preciosismo, mas apeteceu-me. Prerrogativas de artista e ensaiante): Descemos o Chiado via Benneton, paragem obrigatória de jovens meninas, e aterramos finalmente na FNAC, espaço sem preconceitos e democrático, para todas as idades e géneros. Depois de vaguearmos entre livros, CDs e DVDs, finalizamos uma compra sadia e equilibrada de um pouco para todos. A fome apertou.

Chiado, um quarto para as três: Subimos em passo expedito e sem hesitações para o Entrecotte. O que por essa altura me incomodava era uma dorzinha matreira no joelho direito. Da pedra nada. Saboreamos o óbvio bife do lugar e um Bordaux qualquer francês. Tudo me pareceu divino perante um estômago bastante arreliado. No fim nem pedra nem dorzinha, tudo derretido na languidez imposta pela saborosa refeição.

Cascais, cinco da tarde: Que sonecazinha. Soube-me tão bem. Fossem todas as pedras assim! Sento-me para organizar a semana. Actualizo horários, distribuo tarefas, defino o menu e encomendo ao Continente on-line as compras da semana. Preparo a actividades do dia seguinte, telefonemas e pequenos trabalhos, anotando na agenda de fazeres. Vou ajudar a Francisca com os TPCs, bastante mais trabalhosos do que este em desenvolvimento.

Primeiro andar, cozinha, oito e meia da noite: Lá se foi o Verão. Já é noite a esta hora. Preparo o minha rotina de lanche dos Domingos. Nada mais reconfortante do que fazer as mesmas coisinhas e comidinhas simples e rápidas. Tosta mista e um copo de vinho branco fresco. Pergunto se alguém é servido, a fugir de trabalhos. A noite de Domingo é o meu recreio.

Já são 10 da noite: As perguntas de sempre, em sequência ritmada pela experiência: se escovaram os dentes, se pentearam cabelos, se lavaram as mãos, se tomaram os remédios, se as mochilas estão prontas, enfim uma ladainha materna que obtém os costumeiros “tá; Mãe”, “já sei”, “não precisas repetir” etc...tudo arrematado quanto baste com “beijinhos minha querida e dorme bem, sonha com os anjos”.

22:30: Finalmente um desafio! Tenho que mover a pedra para o bolso do confortável pijama às florinhas. Este tem um bolso na blusa, lugar perfeito para acomodar a pedra. Garanto sua segurança, e a minha, com dois alfinetes de bebé a grampear a saída da pedra, não vá causar dissabores nocturnos. Nesse momento sobressaltou-me algumas dúvidas quanto as probabilidades da pedra me magoar. Li o livro “bird by bird” de Anne Lamott, um recente sucesso de bilheteira, imaginem só, sobre como escrever. Meia hora de pois apaguei a luz e dormi consideravelmente bem para quem anda com pedras no bolso.

Manhã seguinte (esta memória descritiva está a dar mais trabalho do que andar de pedra): Pequeno almoço. Pedra ainda no bolso do pijama. As jovens senhoras saem para os respectivos colégios. Sento-me para ver e-mails. Decido estrategicamente continuar de pijama até terminar as 24 horas. A única alteração é reunir-me com as empregadas para entregar a semana planeada e explicar particularidades de consultas médicas, a que dias, quem é responsável. Às 11 e 30 em ponto tiro a pedra do bolso com sentido de desafio cumprido. A vida continua. A pedra essa fica em cima da secretaria juntamente com os dois alfinetes à espera do dia de entrega de TPC.

Esta pedra faz-me lembrar as do coração, aquelas que transportamos pela vida sem que ninguém perceba aquele pequeno peso na alma.

Anamar
19 de Setembro de 2006

Um e um não são dois

Nada mais incerto do que as certezas da vida. Para todos os efeitos, nada mais certo do que as incertezas da vida.
É patente que incertamente preambulamos pela nossas realidades individuais. É evidente a lógica da apregoada conclusão: um e um são dois... Ou não. Afinal o que é que o Dois tem a ver com os Uns? São sujeitos totalmente diferentes! Os Um possuem óbvias qualidades impares, únicas e elegantes nas suas excêntricas singularidades, enquanto que o Dois é rico de curva, no limiar do desequilíbrio físico, e, contrabalança-se sobre uma base esplanada e larga, que, potencialmente, lhe atribui solidez.

Abstrair-se de observar que Onze também é a solução para esta aparente simples equação, (que com toda a ligeireza nos ensinam na primária) não é inteligente, e declara abertamente a estupidez do observador.

Os paradigmas que regem nossas vidas são o que são. Não merecem grande discurso sobre o assunto; limitados; restritivos; obsoletos por natureza. A esperança reside, unicamente, na troca de paradigmas que conseguimos viabilizar no decurso de nossas vidas. Uns com fluida habilidade; outros com vagar solidez (ficam confortáveis e confortados com os novos e intransponíveis paradigmas), e, finalmente, os carregados de energia vital, densos e mutáveis. E uns outros quaisquer estão-se nas tintas para tudo isto! Levianos! Nós aqui com tanto trabalho e esforço e esses fazem o que lhes dá na real gana.
Ok. Talvez esse seja o penúltimo paradigma.
O último por definição não existe.

Anamar
26 de Julho de 2006